30.11.15

calmaria

calmaria de bonança me inunda os braços de mar
já caídos sob a maré vazia do teu corpo

lua cheia numa madrugada suave e límpida
como água corrente

sussurrar de ramos floridos no outono

frases soltas e dispersas, soluçando nesta mesa
de telhas partidas

Ouvi-te. Cantavas no cimo da colina, com um
pássaro poisado no corpo mansamente belo e
transparente.

Queria viver assim, simples, crua, fluida.
Como uma estrela pendurada nos teus cabelos.




10.6.15

E tu dormias. Nu.

Há quanto tempo! Cantámos. Fizemos amor. Os dois. Os vinte.
Tu amas-me? Não, não quero mais vinho. Beijei-te. Eu lembro-
me. Tinhas medo? Eu tive. Quando o chui berrou o meu nome
e o rádio explodiu. Depois deixaram-nos passar.
E os degraus ainda estão lá, cheios de pó e de pontas de
cigarros afogadas em leite.

Escuta... bate. O meu coração rebentou como uma granada.
Fiquei presa pelos cabelos. E tu dormias. Nu.

Que sede esta me estrangula os olhos e me tira
a serenidade que plantaste em mim, ainda ontem...

19.3.15

à flor da água


páro um instante
enquanto a lua sobe
e a noite cresce lenta e segura

páro um instante
e invento o teu perfil
à flor da água nua e murmurante




22.4.14

tudo cá dentro

Olha, quero ir. Quero tudo. Sinto-me escorregar
pela borda da cama, cair até ao fundo do mar,
afogar-me na espuma sádica da lembrança
de uma quinta feira queimada num cigarro
e num copo de Porto. E num corpo de mármore
tremendo no frio, gemendo no calor. Morto, enfim.
Não, não penses que me esqueci. Nadavas. Mentira,
era eu que nadava. Por entre as algas e a nafta
e os peixes mortos boiando na espuma amarela
daquele mar civilizado.

Sem mais nada para escrever, tudo cá dentro.




15.4.14

mar


Sopro morno de uma tarde de areia
no girassol de fogo dentro das coisas


Um beijo de pássaro para entreter o romance
das horas

Súbito
um arrepio no corpo e na vida

o suspiro cálido de um mar triste

19.4.13

tu sabes

corri pelo mar dentro e estavas lá
no infinito tocável como a música que respiro
tu sabes

vivo contigo
neste quarto escuro que é a minha vida a sós

sofres-me cá dentro, de vez em quando

11.3.13

tu

eu sei que
tu
é uma palavra
difícil de dizer
nos olhos





22.2.13

era uma vez

Era uma vez uma pétala
ou um mar
ou nada

O princípio, queria dizer
O princípio

Era uma vez um calor que transbordou

Ilha, pedra, canto
e um rio em flor dentro de casa

Um dia de azul
miragem

Era uma vez

era uma

depois mil

de uma vez

15.6.12

dia felino (1974)

fio de trovoadas incandescentes
na lã do trigo
beijando os pés de algodão
neste tremor embalante
do âmago.
mar de cerejas penduradas
num calmo torpor nu
de caracóis dourados nos dedos.

no êxtase de dois lagos profundos,
sonho
na vertigem colorida da descolagem

dia felino, dia azul de princípio de mundo
explosão de nascer de sol posto sob o corpo
de um deus
renascido da seiva
fervendo nas veias de uma árvore
escondida
da cidade tumefacta.

Redescobrir
constante
do brando e cru chamamento da mãe Terra
na forma de uma carícia
transparentemente nascida na boca,
sentida nos dedos,
amada nos cabelos da constelação
que tu és

e ninguém sabe.

27.2.12

até sempre


um dia
o azul de espuma
na pele
o rebuscar de origens
até ti
até ao fogo
até sempre

3.2.09

jardim da sombra

toca-me de mansinho e leva-me pela mão
ao jardim onde embarcámos um dia
no silêncio da chuva

percorre-me na sombra
e sê comigo
num momento eterno de sorriso

19.5.08

Em breve

Por que esperas? Só um passo.
Só um passo. Estamos todos.
Em breve o horizonte se espraiará
até aos confins da consciência.
Em breve te sentarás no cimo do farol
num dia claro de primavera.

Seguiremos de mãos dadas.

18.2.08

os pássaros e as cobras

Fúria cósmica que vem das raízes. Espasmos de

terror e de suor viscoso dentro de tudo que nasci

e morro a cada hora. Em cada gesto. Em cada grito.

Ondulantes vibrações escorrem-me dos braços, depois

de tantas noites de angústia cantada. No meio dos

pássaros e das cobras. E da areia movediça convi-

dando a cada esquina.

Tantas dores infundadas e vivas. Tantas garras de

lâminas. Tantas palavras choradas e ridas sem

repouso. Fúria de loucura nestes restos mortais

de um cadáver vivente que agoniza, sugando

a imanente felicidade da Terra. Coloridas taças

de veneno libertador. À espera de uma fonte

de água gelada escorrida das montanhas silen-

ciosas do desejo de alegria e paz. Como aguentar

este cavalo louco!

20.6.07

da terra

descalcei-me na noite
para sentir o pulsar da terra
fechei os olhos devagar
e acordei
do outro lado do espelho

15.6.07

perfume de terra

sentindo-te
a boca húmida quase sem querer
apeteceu-me uma colina
um chão
perfume de terra
perfume de ti
e a colisão amorosa num cosmos de cabelos suados
mãos
tuas
percorrendo vales e rios
à procura do que sou
descobrindo-me enfim nos olhos de uma noite qualquer
desde que seja uma noite quente
e sem remorsos

1.8.06

se tu viesses

eu só queria que viesses buscar-me
e me levasses ao cimo do monte
até que passasse este inverno
este silêncio de vaguear por mim
à procura do que falta

se tu viesses buscar-me
havíamos de colher malmequeres
e cantaríamos glórias ao Ser

23.5.06

o corpo da terra

nos momentos em que o meu corpo é
o corpo da terra
eu queria fazer amor contigo
num fluir universal de raízes

4.4.06

sem corpo

amo-te sem corpo
nas mãos, no entanto
encontro-te
ilha, sol
areia morna para deitar o meu cansaço
a pouco e pouco
mar
em que mergulho à tua procura

24.2.06

porque o amor não depende

nunca serás tu
ou tu
foste talvez sempre Tu
ainda agora

e aqui no tempo sem tempo
a força é amor e eu sei
que o Amor Absoluto não depende
nem do tempo nem do espaço
porque o amor não depende
o amor É
ou não é

2.2.06

Sim

Sim, um espaço desfeito
um vácuo esparsamente preenchido
gotas suspensas
por cima de outros mundos
como girassóis
como espuma

... à procura, sempre
de uma ilha de coral nos olhos
de um banco de areia no corpo...

21.11.05

trevo

acordei doce no corpo: ainda o musgo e a lua
ainda o tempo
do lado de cá do muro

sim, amor
é o fogo na semente e a terra nos pés
descalça
é o rio cá dentro e a brisa
ainda nós
a cada instante
trevo

24.8.05

Lago

Como é dolorosa, esta teimosia de sofrer passiva
o drama deste mundo que se queima
em cada monte de ervas verdes!

Dóis-me. Tu não sabes como eu sinto - sempre
esta mania de me convencer de que sofro.
É verdade. Queria-te aqui. Despido de memória.
Mergulhaste neste lago e eu lavei-te a boca e os olhos.
Depois vieste dormir com o coração no meu colo de mãe.
Vem outra vez. E outra. Eu dou-te um filho da natureza. Tu.

fúria mansa

Olho-te. Não vejo nada, mas persisto. Falar. Gritar.
Deitada na relva ensopada em chuva e lama.
Misturar-me nela e ir por aí.
Olhos de vidro. Olhos fluidos! O teu corpo...
Não quero que vás.
Eu gostava de ficar assim, a dormir ao teu lado.
Teu lado? Uma pedra que cai do armário, um
tiro disparado da gaveta da cómoda. Deixem-me.
Não suporto mais isto.

Este amor, esta fúria mansa nos dedos que tocaram
os teus pulsos, ainda ontem.

no quarto da Teresa

Obsessão: as rosas são verdes. Levanta os braços.
Cospe. Musgo negro que pintas o mar. Solavancos
e flores. Morte e café. São horas. A camioneta é
às sete. Podemos entrar? Acendo a luz. Tens um
belo corpo. E visto-me. Querendo agarrar-me aos segundos.
Teu cabelo, teus olhos, tua luva de sal e vodka. Fumo.
Vejo. Mãos mortas, no calor flutuante do quarto da
Teresa. Choras e gemes. Beijo-te. Sorris. Tens medo.
Para quebrar as portas são precisos punhos fortes.
Obsessão: o tempo parou. Falas no sonho.
Queres falar, mas não sabes. Soltas grunhidos
frustrados, lentos demais.

tens um belo corpo

Que sede é esta que me queima os olhos e me faz tremer
as mãos... Não, não digas. Não é verdade. Tédio. Só tédio.
Berros desamparados no fundo.
Os teus cabelos são loiros. Não, é o sol. É o tabuleiro
no chão e o fumo azul que corta os vidros da cama do Pedro.

Cala-te, não suporto essa voz que adivinho. Jornal dobrado.
Mais um dia, menos um dia. Limite viscoso no braço da cadeira
pendurada numa tecla do piano. Robots sensuais me afagam
os seios e guincham. Ouvi uma explosão, caixotes que
rebolavam pela escada. Eras tu, Pedro, de olhos vítreos
fixos no meu braço esquerdo. Onde a agulha se tinha enterrado.

Tens um belo corpo - fazes poemas. Não, não estou a chorar.
Mas tenho feridas nos ombros e os lábios inchados.
Tu não. Tu amas-me?

amanhã ou depois

Nasci nos carris de mármore deste telhado de bruma.
Uma aranha me abriu os braços quentes de erva queimada e me apontou o lugar.

Ali! Não voltes ao barco.
De hastes de musgo, o leão ainda está vivo.
Entrelaça todos os caminhos e morre com uma gota de luar nas mãos.

Não, esta abelha azul veio do meu ventre de água. Sai daqui com um sorriso pálido nos olhos. Mas vem amanhã
ou depois. Colher as constelações que ainda não te dei.

Amanhã ou depois. Um paraíso perdido no meio do nevoeiro
e das balas.

CHILE! SETEMBRO, 11

a besta é toda uma
e hoje ouvi-te gritar, irmão
e quis ser mãe e amante
numa esperança desesperada de luta

a besta é toda uma
e ouvi-a ganir hoje, irmão
esmagando os nossos filhos
com patas de aço e veludo

a besta é toda uma
mas hoje, como ontem, iremos para a frente
e as árvores hão-de florir todo o ano
no mundo que havemos de conseguir

eram belas as vozes

eram belas as vozes, no fundo do tumulto
água e pão escorriam pelas masmorras da inquietude
abafada pelo eco do medo


mansas folhas de azinheira nova
sem dúvida

e um corpo nu

enfim

firmemente nu


como lâmina de guilhotina gritante

fuga

deixem-me ficar aqui
dormir
e saber que o comboio me espera
no lago
no silêncio assombrado
dentro da boca
Partir
"poeticamente habitar"
comer a terra
e subir às árvores
no desespero da fuga
Estar só
com medo da solidão
E viver aí
saboreando o azedo visceral
da inquietude

café

Ainda consigo pensar. E beber café.

Ainda consigo pensar?

Vou bebendo café.

vigília

suportar a vigília com duas rugas em vez de olhos
levitar pelas calçadas adormecidas
durante as noites que faltam
rangendo musicalmente com um cárcere na memória
e um mar salgado na garganta

quereria abraçar uma viola e torcê-la
para que pingasse um choro furioso
como vento

copos










aqui há um poema
no fundo dos copos

Natal

Pim.
Som de cacos verdes. Transparentes.
Sinos de estrelas no ar.
como gaivotas na doca

Gestação. Nascer. Estar.
Amo-te.
Gémeos nascemos. Mas separados.
Beijos de encontro. Enfim, sós!

Natal. Corações quentes.
Solitários.
Sabes, eu gosto de ti.
Vamos ver as luzes.
Vamos para a chuva.

noite esquecida

depois saí para a chuva
sozinha e improvisada
corri perdida de amor
no corpo
nos olhos
na noite esquecida do betão
e de mim

desvaneço agora o sorriso e as lágrimas

sou folha no vento, as mãos abandonadas

do lado de cá da vida

sopro de vento

uma lua cheia

de olhos

de ti um sopro de vento

de ti a noite

em mim

e eu não sabia

possível como vento foste tu
e eu não sabia

que são fogo teus inventos
tua ausência
teus momentos controlados

argila

teu corpo argila minha falta

que de nós apenas a ausência

do sopro o pálido gesto

no rio a lívida certeza

que de nós apenas a lembrança

lótus

creio-te cântico silencioso de raízes

olhar aberto à chuva

creio-te semente, presença sublime de ser

é por isso que eu te amo

coração lótus em flor

a ouvir o rio

não quero descer
sinto-me bem assim
deitada na relva húmida
a ouvir o rio

queria dizer-te
que tenho a certeza

maré vazia

em ti semeei
silencioso afago
e te amei os lábios
nus
ingenuamente

desprendida me prendi
e me perdi silenciosa
no rebentar das ondas em levante
no teu vento de espuma turbilhão

no esquecimento de nós nos encontrei
à beira mar um dia
amantes tão ao longe
e cantei
maré vazia

adormecer

agora
só me resta ir ter contigo
para adormecer em ti
e assim esquecer
este meu sono das horas

o eco do tempo

sentei-me nas pedras
no meio das oliveiras
a ouvir o eco do tempo

ao longe na serra
uma voz clara e transparente cantava
uma música triste

e lembrei-me dos dias
em que a terra cheirava a hortelã
e o vento a maresia

só uma vez

parte comigo
só uma vez
toca-me no ombro
para um passeio de barco sem vento nem sol
num dia cinzento de verão

chama-me no campo das oliveiras
e das pedras do rio manso
onde embarcámos um dia no silêncio da chuva

parte comigo
só uma vez

da noite

murmuras segredos da noite nos olhos
e, no toque,
te sorrio
à procura, sempre
do outro lado de mim

até ao dia seguinte

A Mar Te hei

até ao dia seguinte

Incondicionalmente