nunca serás tu ou tu foste talvez sempre Tu ainda agora
e aqui no tempo sem tempo a força é amor e eu sei que o Amor Absoluto não depende nem do tempo nem do espaço porque o amor não depende o amor É ou não é
Como é dolorosa, esta teimosia de sofrer passiva o drama deste mundo que se queima em cada monte de ervas verdes!
Dóis-me. Tu não sabes como eu sinto - sempre esta mania de me convencer de que sofro. É verdade. Queria-te aqui. Despido de memória. Mergulhaste neste lago e eu lavei-te a boca e os olhos. Depois vieste dormir com o coração no meu colo de mãe. Vem outra vez. E outra. Eu dou-te um filho da natureza. Tu.
Olho-te. Não vejo nada, mas persisto. Falar. Gritar. Deitada na relva ensopada em chuva e lama. Misturar-me nela e ir por aí. Olhos de vidro. Olhos fluidos! O teu corpo... Não quero que vás. Eu gostava de ficar assim, a dormir ao teu lado. Teu lado? Uma pedra que cai do armário, um tiro disparado da gaveta da cómoda. Deixem-me. Não suporto mais isto.
Este amor, esta fúria mansa nos dedos que tocaram os teus pulsos, ainda ontem.
Obsessão: as rosas são verdes. Levanta os braços. Cospe. Musgo negro que pintas o mar. Solavancos e flores. Morte e café. São horas. A camioneta é às sete. Podemos entrar? Acendo a luz. Tens um belo corpo. E visto-me. Querendo agarrar-me aos segundos. Teu cabelo, teus olhos, tua luva de sal e vodka. Fumo. Vejo. Mãos mortas, no calor flutuante do quarto da Teresa. Choras e gemes. Beijo-te. Sorris. Tens medo. Para quebrar as portas são precisos punhos fortes. Obsessão: o tempo parou. Falas no sonho. Queres falar, mas não sabes. Soltas grunhidos frustrados, lentos demais.
Que sede é esta que me queima os olhos e me faz tremer as mãos... Não, não digas. Não é verdade. Tédio. Só tédio. Berros desamparados no fundo. Os teus cabelos são loiros. Não, é o sol. É o tabuleiro no chão e o fumo azul que corta os vidros da cama do Pedro.
Cala-te, não suporto essa voz que adivinho. Jornal dobrado. Mais um dia, menos um dia. Limite viscoso no braço da cadeira pendurada numa tecla do piano. Robots sensuais me afagam os seios e guincham. Ouvi uma explosão, caixotes que rebolavam pela escada. Eras tu, Pedro, de olhos vítreos fixos no meu braço esquerdo. Onde a agulha se tinha enterrado.
Tens um belo corpo - fazes poemas. Não, não estou a chorar. Mas tenho feridas nos ombros e os lábios inchados. Tu não. Tu amas-me?
Nasci nos carris de mármore deste telhado de bruma. Uma aranha me abriu os braços quentes de erva queimada e me apontou o lugar. Ali! Não voltes ao barco. De hastes de musgo, o leão ainda está vivo. Entrelaça todos os caminhos e morre com uma gota de luar nas mãos.
Não, esta abelha azul veio do meu ventre de água. Sai daqui com um sorriso pálido nos olhos. Mas vem amanhã ou depois. Colher as constelações que ainda não te dei.
Amanhã ou depois. Um paraíso perdido no meio do nevoeiro e das balas.
deixem-me ficar aqui dormir e saber que o comboio me espera no lago no silêncio assombrado dentro da boca Partir "poeticamente habitar" comer a terra e subir às árvores no desespero da fuga Estar só com medo da solidão E viver aí saboreando o azedo visceral da inquietude
suportar a vigília com duas rugas em vez de olhos levitar pelas calçadas adormecidas durante as noites que faltam rangendo musicalmente com um cárcere na memória e um mar salgado na garganta
quereria abraçar uma viola e torcê-la para que pingasse um choro furioso como vento